O
rapper Malefuck, Papa Giboia, Malepetilo ou Malala como também é
tratado, revela de forma destemida em entrevista a Society News que os
novos discos de Sandocan e do Yanick estão a ser travados pelo Regime,
além de afirmar categoricamente que a inveja domina o Movimento Hip
Hop, citando nomes para exemplificar. Mais além desabafa que os Blogs,
outrora criados como alternativa para facilitar a divulgação da música
rap face aos bloqueios dos meios convencionais, estão monopolizados e
traça estratégias de como dialogar com o Presidente da República,
lançando mais uma vez duras críticas ao rapper Matafrakuz.
Por: Preto Misterinha
pretomisterinha@hotmail.com
Society News (SN): Qual é a sua opinião sobre a actual situação do Hip-Hop?
Malef:
Muita gente diz que ama o hip-hop, mas no fundo cada rapper tem inveja
do outro, do que se nota hoje em dia, já ninguém é sincero nas suas
opiniões sobre a música do outro. Desta forma, além das barreiras que
outras pessoas fora do movimento estão a colocar, nenhum rapper vai
fazer sucesso aqui porque a inveja de um rapper ultrapassa a de uma
mulher quando apanha seu parceiro com outra.
Mas
os que agravaram tudo isso são os filhinhos de papá [Corean Dú] que
começaram a cantar e os rappers que se tornaram radialistas [Big-Nelo e
Kool Klever]. Estes, é que fizeram com que a discriminação no rap
tomasse a proporção em que se encontra actualmente. Dizem, por exemplo,
que não entendem o que canto, mas gostam e tocam nos seus programas
músicas, muitas delas com ofensas explicitas do Lil Wayne”. Prova desta
inveja, falsidade e mentiras a mistura que tomaram conta do movimento
Hip-Hop, são os blogs, Muitos deles foram
criados com o propósito de impulsionar o movimento, mas fruto dos
bloqueios que os próprios rapper se fazem muitos blogs estão
monopolizados, publicam “Cenas que Curto” de alguns e de outros já não.
SN: Há ajuda mútua entre os rappers?
Malef: Portanto, nota-se claramente que muitos rappers que têm blogs só promovem as suas músicas, assim como os “managers” que só promovem os seus músicos, o grande exemplo disto é o Dj Samurai
o CEO da MadTapes. Ele demonstra que é um verdadeiro Samurai com as
suas estratégias de marketing para lançar seus artistas e desta forma
qualquer rapper que ele abrace, desde que cante bem, será sempre um
sucesso. Antes o Samurai fazia isso com todos, mas actualmente só faz
com os seus rappers, portanto o Fly Skuad embora seja um rapper
da New School, tem tudo para vender muitos discos. Além destas
barreiras entre os próprios rappers, de outra forma, noto também que o
Hip-Hop está a ser combatido pelo Kuduro, a muito contestado, mas anda
sim é prematuro dizer que o Hip-Hop está morto. De facto, noto que há
uma disputa acérrima entre kudurista e rappers, entretanto tudo indica
que vai chegar uma altura que o kuduro vai se afundar e vão nos deixar
com o nosso Hip-Hop.
SN: Acha que a sua música com o Fat Joe teve a aceitação que esperava?
Malef: Para
ser sincero não, eu me considero como um talento perdido em África e
esperava que a música fosse mais consumida, principalmente nos midias.
É uma música que comprou um beat passamos horas no estúdio para
escrever e gravar, participou um vedeta da música norte americana, e
sinceramente espera que os nossos radialistas dessem mais valor ao que
é nosso do que ficar a tocar música do Lil Wayne carregada de mensagens
implícitas. Alguns radialistas descarados, que não adianta citar nomes,
dizem que não tocam minhas músicas porque não entendem o que canto. Mas
acho que é por ser rap porque o remix de Cabo Snoop com Fat Joe teve
uma aceitação diferente da minha, mas o Fat Joe só participou naquele
remix porque pensou que é homenagem a sua música Lil Buck.
SN: Qual é média de espectáculos em que participa por mês?
Malef: Muito
poucos, mas para contrariar esta realidade tomei a iniciativa de
realizar meus próprios espectáculos, pelo menos duas ou três vezes por
mês realizo um show meu e convido outros rappers amigos. Mas, isso
permitiu-me descobrir uma mania que os rappers angolanos têm. Meus
irmãos temos que parar com esta fobia de que o espectáculo como custa
100 kwanzas não vou pagar porque também sou cantor, porque um dia
quando for a tua vez outro músico também vai querer ir ao teu sem pagar
e isso deita de fora o investimento que fazemos para realizar estes
eventos, todos sabem que hoje nada é feito de graça.
Quando
o rapper realiza um show outros rappers não aparecem por não querer
pagar e vice-versa, o mesmo acontece quando se trata de venda de CD.
Mas isso não acontece entre os kudurista porque quando Puto Lila vende
seu disco o Nagrelha vai comprar. Assim como no Semba e na Kizomba, os
músicos compram o ingresso e vão ao espectáculo do outro, não há
complexos de que também canto Kizomba ou Semba por isso é que só vou a
show se for de favor. Portanto falta esta união entre os rappers
angolanos, mas particularmente os de Luanda porque quando vamos nas
províncias os rapper locais compram os ingressos para ver o show.
SN: Considera os rappers pobres?
Malef: Afirmo
categoricamente que não, temos que parar de passar a mensagem de que os
rappers são pobres porque nós é que iniciamos com as capas de Cds
bonitas, misturas e masterização das músicas, além dos videocipes de
qualidade, hoje em dia se isso se estendeu até ao Semba, Kizomba e ao
Kuduro graças aos rappers.
SN: Como é você se define?
Malef: Não
sei até aonde quero chegar, mas de uma coisa tenho a certeza, há muita
gente nas mesmas condições que eu e pode não ser agora, mas um dia
terei seguidores que vão levar avante as minhas ideologias. Tornei-me
num Revolucionário, mas quando digo que sou revolucionário não é para
falar mal do Governo. Eu não sou Undreground nem revulucionario, eu sou
Hardcore, ou um Underground pelo espírito. Não sou Underground como
pensam do Kid-Mc porque para mim este rapper é um autêntico comercial.
“MATAFRAKUZ PASSOU DOS LIMITES”
Depois
das manifestações algo preocupa-me e feri-me todos os dias, e quero
aproveitar para dizer a outros rappers quando decidirem contrariar as
políticas do presidente, caso tenham mesmo a coragem que dizem ter,
dirijam-se ao Futungo, Miramar, Morro da Luz ou Cidade Alta, chegam num
destes sitio batam a porta e digam que querem falar com o presidente,
pois é lá onde podem encontra-lo e peçam para falar com ele
individualmente, não é aproveitar num espectáculo de Hip-Hop, ao ponto
de envolver outras pessoas.
Quando um rapper
decide fazer manifestação não engloba o Movimento Hip-Hop todo. Todos
nós já sabemos que os puros bandidos estão no poder e deixa-me
sublinhar que não é um poder de brincar, porém, Matafrakuz, quando
quiseres contrariar o regime, não se apoie aos rappers, aliás quero
também te fazer lembrar que os fãs dos rap são traiçoeiros, apoiam num
momento, mas no outro não querem saber de ti.
Entretanto,
na minha opinião, devias, e deve sempre que quiser, manifestar-se como
cidadão comum e não apoiar-se ao Movimento Hip-Hop porque estamos a
verificar que todos rappers, sem excepção de ninguém, estão a ser
afectados pelas consequências da tua irresponsabilidade. Eu, por
exemplo, nunca falei mal do Governo ou de um governante nas minhas
músicas, embora nas vestes de cidadão reclamo várias vezes quando falta
luz ou água, mas também fui proibido de passar na TPA a nas rádios do
grupo RNA.
Além de mim, outros rappers como
Sandocan e o Yanick estão a ser afectados com o impedimento do
lançamento das suas obras discográficas, até os potenciais
patrocinadores receberam ordens para não apoiar ninguém. O disco do
Yanick até agora estaria a tocar se não tivesse tirado a música contra
os mulatos, a barra pelas músicas deste rapper começou com o boicote no
show da Unitel, portanto estes são exemplos com os quais devemos
aprender.
A título de exemplo, fui pedir
patrocínio à editora Milionário, mas disseram-me que para este ano não
estão apoiar rap, encontra-se numa lista negra por isso a editora não
lança discos de rappers. Prova do que estou a dizer e do mau momento
que a música rap atravessa é o Festival Internacional de Hip Hop que
foi realizado depois do Festival Internacional I Love Kuduro. Este
último teve todos apoios possíveis até a cobertura em direito na
Televisão Pública de Angola, mas o Festival Internacional de Hip Hop,
onde sei que investiram mais de 80 mil dólares norte-americanos não
mereceu a mesma cobertura, tendo como resultado a pouca aderência e
como consequência o desperdício das verbas investidas.
SN: Onde está o respeito pelas ideologias de outrem?
Mas,
entretanto não condeno a atitude do Ikonoclasta, mas ele não podia
apoiar-se ao movimento rap para fazer o que ele fez, senão daqui a
pouco teremos também o Akwá a mobilizar os futebolistas para se
manifestar, e se assim for vamos ver também a bloquearem o Girabola e o
Bento Kangamba deixará de ter uma equipa de futebol. Eu não tenho nada
contra o Governo porque a minha vida não depende deles, a vida é tão
curta que temos que aproveitar vive-la, portanto se eu entrar nesta
brincadeira de manifestações vou assustar daqui a pouco tenho 50 anos e
não fiz nada de jeito na minha vida.
Por isso
meus irmãos aconselho que ao acordar de manhã quem vai pedir emprego ou
patrocínio vai, porque na minha opinião ainda não é altura de reclamar
porque há uma esmagadora maioria que não paga regularmente os impostos
nem pelo consumo da água e da energia.
Há muita
gente nos escritórios que nunca estudaram nas áreas em que trabalham,
mas ainda assim, há muitos também que reclamam de que o Governo não dá
nada, mas as casas onde vivem receberam do regime.
Isso
é como diz a velha máxima de que enquanto os leões não tiverem um
historiador os caçadores vão sempre dizer que são eles que descobriram
a selva. Ou seja, se não sabermos como andar e defender nossos direitos
pessoais eles vão sempre nos comandar porque só eles que têm tudo. Se
és pobre luta para ser rico, mas não luta pisando nos outros.
Este
sistema já encontramos, vamos deixar, mas vai chegar uma altura que vai
acabar, portanto não vamos estragar o rap porque é o meu ganha-pão e de
muita gente, há pessoas como eu que além do rap não sabem fazer mais
nada.